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A poeta brasileira dos anos 70 que você gostaria de conhecer – Poética marginal, 10 poemas de Ana Cr

  • Amanda Timóteo
  • 19 de abr. de 2016
  • 3 min de leitura




O objetivo dessa lista é atrair os leitores para a poética de uma mulher de uma geração importantíssima, para que conheçam o nome de uma grande escritora e poeta marginal, que contribuiu para nossa história. E também para trazê-la como símbolo de resistência, inspirando outras mulheres que fazem parte da cena marginal e independente.

A busca não foi imediata, ao ver que na literatura sempre enalteceram mais os nomes dos homens, enquanto o nome delas são só títulos de poesias deles. Com o decorrer do tempo muitas mulheres foram “apagadas”, e quando procuradas na internet, por exemplo, são só resumos minúsculos de suas histórias. Assim como em outras expressões artísticas, a literatura também é carregada de machismo, em que normalmente as mulheres são silenciadas. E apesar de ter sido sempre presente e ainda estar, não era tratada cara-a-cara.

Entre uma pesquisa e outra sobre grandes nomes da poesia marginal, encontro o nome de uma mulher, muito importante para esse movimento literário:


Ana Cristina César, Ou Ana C. (1952 – 1983) Nascida no Rio de Janeiro, conhecida por ser um dos principais nomes do movimento mimeógrafo dos anos 70, poeta marginal e tradutora.

Começou publicando em revistas e jornais alternativos nos anos 70, seus poemas e prosas. Tinha uma escrita única e inovadora, e também ultrapassava os limites existentes do ser mulher naquela época, sua fala era de uma mulher moderna e independente, que escrevia livremente sobre sua sexualidade.





A poesia da carioca é marcada por um tom confessional, direto e de grande coloquialidade. Seus primeiros livros, Cenas de abril e Correspondência completa, foram editados de maneira 100% independente e caseira, pela própria autora e por seus colaboradores e amigos mais próximos, o poeta Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda.” (EL PAÍS - Camila Moraes)

Suas principais obras são:

  • A teus pés

  • Inéditos e Dispersos

  • Poética

  • Cenas de abril

  • Correspondência completa

E aqui vai uma lista especial de 10 poesias, da magnifica poeta marginal, Ana C.:

  1. Samba de Canção

Tantos poemas que perdi.

Tantos que ouvi, de graça

pelo telefone – taí,

eu fiz tudo pra você gostar,

fui mulher vulgar,

meia bruxa, meia-fera,

risinho modernista

arranhado na garganta,

malandra, bicha,

bem viada, vândala,

talvez maquiavélica,

e um dia emburrei-me,

vali-me de mesuras

(era uma estratégia),

fiz comércio, avara,

embora um pouco burra,

porque inteligente me punha

logo rubra, ou ao contrário, cara

pálida que desconhece

o próprio cor-de-rosa,

e tantas fiz, talvez

querendo a glória, a outra

cena à luz de spots,

talvez apenas teu carinho,

mas tantas, tantas fiz...

2. Fisionomia

não é mentira

é outra

a dor que dói

em mim

é um projeto

de passeio

em círculo

um malogro

do objeto

em foco

a intensidade

de luz

de tarde

no jardim

é outrart

outra a dor que dói

3. Tenho uma folha branca

Tenho uma folha branca

e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca

e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma vida branca

e limpa à minha espera.

4. O homem público N.1

Tarde aprendi

bom mesmo

é dar a alma como lavada.

Não há razão

para conservar

este fiapo de noite velha.

Que significa isso?

Há uma fita

que vai sendo cortada

deixando uma sombra

no papel.

Discursos detonam.

Não sou eu que estou ali

de roupa escura

sorrindo ou fingindo

No entanto

também escrevi coisas assim,

para pessoas que nem sei mais

quem são,

de uma doçura

de tão funda.

5. Mocidade independente

Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra

cima sem medir mais as consequências.

Por que recusamos ser proféticas?

E que dialeto é esse para a pequena audiência de serão?

Voei pra cima: é agora, coração,

no carro em fogo pelos ares,

sem uma graça atravessando o Estado de São Paulo,

de madrugada, por você, e furiosa: é agora,

nesta contramão.

6. Esqueceria outros

pelo menos três ou quatro rostos que amei

Num delírio de arquivística

organizei a memória em alfabetos

como quem conta carneiros e amansa

no entanto flanco aberto não esqueço

e amo em ti os outros rostos

7. Psicografia

Também eu saio à revelia

e procuro uma síntese nas demoras

cato obsessões com fria têmpera e digo

do coração: não sou e digo a palavra: não digo

(não posso ainda acreditar

na vida) e demito o verso como quem acena

e vivo como quem despede a raiva de ter visto

8. Noite Carioca

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.

Atravanco na contramão. Suspiros no

contra fluxo. Te apresento a mulher mais discreta

do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

9. Houve um poema

que guiava a própria ambulância

e dizia: não lembro

de nenhum céu que me console,

e saía,

sirenes baixas,

recolhendo os restos das conversas,

das senhoras,

"para que nada se perca

ou se esqueça",

mesmo se ferido,

houve um poema

cruz vermelha

que escapou-se

e foi-se

ralo abaixo.

10. E penso

a face fraca do poema/ a metade na página

Mas calo a face dura

flor apagada no sonho

Eu penso

A dor visível do poema/ a luz prévia

Mas calo a superfície negra

pânico iminente do nada.

* Para quem quer saber mais sobre Ana C. existe um documentário chamado: Bruta Aventura em Versos.

A poeta carioca será homenageada na Flip 2016.

 

 
 
 

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